Fui ao TNSJ ver o “Turismo Infinito”. Uma peça encenada pelo grande Ricardo Pais que nos leva a uma viagem pela cabeça daquele que foi o maior poeta português. O serão não só serviu para matar as saudades do teatro (ansiava há muito por ver uma boa peça) como reavivou a minha memória.
Sempre gostei da forma como Fernando Pessoa via o mundo. Revia-me em muitas coisas que ele escreveu. E a peça despertou a vontade de reencontrar o poeta. Parti então à descoberta da sua obra no mundo cibernáutico (é a forma mais simples e rápida de encontrar o que queremos nos dias que correm) e achei um poema que reflecte o meu estado de espírito neste momento: «O que há em mim é sobretudo cansaço».
O que há em mim é sobretudo cansaço
Não disto nem daquilo,
Nem sequer de tudo ou de nada:
Cansaço assim mesmo, ele mesmo,
Cansaço.
A subtileza das sensações inúteis,
As paixões violentas por coisa nenhuma,
Os amores intensos por o suposto alguém.
Essas coisas todas -
Essas e o que faz falta nelas eternamente -;
Tudo isso faz um cansaço,
Este cansaço,
Cansaço.
Há sem dúvida quem ame o infinito,
Há sem dúvida quem deseje o impossível,
Há sem dúvida quem não queira nada -
Três tipos de idealistas, e eu nenhum deles:
Porque eu amo infinitamente o finito,
Porque eu desejo impossivelmente o possível,
Porque eu quero tudo, ou um pouco mais, se puder ser,
Ou até se não puder ser…
E o resultado?
Para eles a vida vivida ou sonhada,
Para eles o sonho sonhado ou vivido,
Para eles a média entre tudo e nada, isto é, isto…
Para mim só um grande, um profundo,
E, ah com que felicidade infecundo, cansaço,
Um supremíssimo cansaço.
Íssimo, íssimo. íssimo,
Cansaço…
Álvaro de Campos
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