Podemos ler todos os livros lançados sobre a matéria, consultar todos os especialistas, visitar todos os espaços cibernáuticos dedicados à doença, que nunca conseguirem ter a real percepção do drama que é conviver com o distúrbio bipolar. Por isso, tomo a liberdade de partilhar o testemunho de uma verdadeira mulher de coragem que aprendeu a sobreviver nesta insconstância… Yashmeen.
«Tenho a boca seca. Tenho febre. Não durmo há dois dias, nem com o triplo da dose de ansiolíticos. O meu sistema imunitário fragilizado originou-me uma crise fortíssima de rinite. Sinto-me como se me tivessem sorvido parte da minha energia. Tenho a cabeça esvaziada, com um peso que não consigo aguentar. Quase não consigo pensar, comer, tenho o estômago desdobrado em nós. Estou triste, quero chorar e não posso. Tento não falar com pessoas, com medo de que a mínima coisa que digam me possa doer mais que o habitual. Ou que não digam. Não atendo o telefone, a menos que seja por motivos profissionais (estou em piloto automático).
A cada médico novo, gera-se este medo: o da mudança da medicação. A última vez tinha sido há dois anos. Sei que é inevitável e que demora uma semana. Antes de passar a nova receita, a nova médica pergunta-me se quero duas semanas de baixa. Ora eu não posso ter baixa porque tenho um negócio. Nem me deixo vencer assim. Deito as caixas do antigo medicamento fora, para não ter a tentação de voltar a este, e encaro o desafio do novo, não sem pesar. Sei que tenho um marido que aprendeu a viver com isto e que mete mãos à obra para me facilitar a vida em tudo. Por isso, entre outras coisas, lhe sou tão grata, porque outros não têm a mesma sorte. Tenho um rapazinho que não pode perceber que a mãe não está bem e que precisa de mim como nos outros dias. Não posso meter baixa da vida.
Viver com transtorno bipolar dá-nos momentos de grande desespero. Não é o fim do mundo, não é a pior das doenças, é possível ter uma vida normal. Tem maus momentos, momentos em que se sente que se está a tocar o fundo do poço. Muitos não aguentam esta montanha-russa de medicações e alterações do estado de ânimo e a taxa de suicídios é muito alta entre os bipolares. Já me aconteceu passar por tudo isto quase uma vez por mês. Agora já não me acontecia há dois anos, que foi a data da minha última mudança de medicação. Acho que aprendi a lidar com este desespero, mais ou menos. Consola-me a ideia de ter atingido uma estabilidade muito aceitável, coisa que, infelizmente, muitos nunca chegam a conseguir.
O transtorno bipolar não é uma invenção, uma “mania”, um truque para chamar a atenção. É sério e existe, muito para além da vontade que possamos ter de que não exista. Não tem cura, não tem remédios mágicos, não passa com terapias alternativas, nem com noites de copos. Existe, dói e afecta-nos fisica e psicologicamente. Vai para além dos erros que possamos fazer/ter feito, do nosso passado, das nossas opções de vida. Não está associado a consumos de droga nem a comportamentos bizarros, regra geral.
Não nos valoriza nem diminui intelectualmente, como por aí se diz. Encontro blogs de bipolares que se acham semi-deuses num Olimpo qualquer e isso repugna-me, porque há tanto sofrimento por trás da hiperactividade que muitos querem achar fantástica, porque nos faz mais produtivos, mais energéticos, mais activos. Faz-nos também entrar num desgaste exagerado que depois o corpo compensa com uma certa letargia e apenas a medicação consegue repor o equilíbrio das coisas.
Não posso fechar a persiana e desaparecer quinze dias. Não posso, não quero, recuso-me. Estou mal, amanhã posso estar melhor ou pode ser apenas depois de amanhã. Luto sinceramente contra isto, mas uma das maiores tristezas da minha vida é não poder dormir uma noite sem medicamentos. Desde há dez anos e até ao fim dos meus dias. Se pudesse apagar qualquer coisa da minha vida, apagava isto. Como não posso, deixo que os meus fantasmas me assaltem e reúno forças para que um dia destes os possa meter de novo no armário e fazer de conta que, mais uma vez, isto não aconteceu. Mas não é hoje. Hoje eles andam por aí e eu não tenho forças.»
Yashmeen in Entre do(i)s Mundos – «Walking in my shoes»
12 Comentários
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Espero sinceramente que o meu testemunho possa sublinhar o que tão bem escreveste. Obrigada pela visão lúcida sobre o tema.
Olá,
Como é que se vive com o Lupus e com esta doença?
Somos duplamente amaldçoadas!
Às vezes quero desistir de tudo e desaparecer. Desejo nascer outra vez, melhor e mais perfeita.
Quero poder esquecer a dor que tenho dentro de mim. Quero esquecer e quero que me esquecam. Por vezes é tão dificil manter-me viva, querer estar viva.
Aleera
Cara Aleera,
Sei que muitas vezes o estado de desmoralização é tal que apenas nos parece viável desistir de tudo. Fechar o livro e, se possível, lançá-lo à fogueira para eliminar todo e qualqer vestígio. Mas acho que isso não resolve nada, a não ser o imediato.
Não é por iniciarmos uma nova história que nos vamos tornar melhores e mais perfeitas.
Tens que procurar a perfeição dentro dos teus defeitos, daqueles pequenos traços da personalidade que fazem de ti um ser único… Não te escondas, nem permitas que o mundo se esqueça de ti.
Por muito que custe, mantém a chama viva!
***
Aleera,
Há sempre uma esperança de que apareça um medicamento novo, uma terapia. Não percas a força.
ser feliz todos os dias é uma grande cura. para a maior parte dos males. não nos podemos esquecer de ser felizes todos os dias. não querem experimentar?
Mas, e como se vive com um bipolar? toda a gente fala dos coitadinhos dos bipolares que sofrem tanto, (e sofrem sim senhor!) mas, e quem vive com eles? a minha mãe é Bipolarissima, e faz a vida negra a toda a gente que vive com ela! tanto está estérica, fala alto, nao para quieta, (principalmente quando vê os netos, de tanta alegria), achasse mais inteligente que toda a gente, muito culta e sobredotada! é extremamente incoveniente a maior parte das vezes ao ponto de numa saida nos deixar a todos embaraçados porque fala demais, e fica mega obcecada com limpezas e tudo o mais! depois passa dias e dias enfiada na cama, sem fazer absolutamente nada, em que ate o pequeno almoço e o lanche lhe temos que levar a cama, porque nao lhe apetece levantar…como se vive com isto? o meu pai matasse a trabalhar, chega a casa cansadissimo do emprego e a minha mãe como esteve sozinha o dia todo só quer atençao e mõelhe a cabeça com perguntas..eu tento ajudar e ter paciencia e ser querida, mas é dificil ter palavras de amor e compreenssaõ quando tudo aquilo que dizemos é levado a mal, e levamos com respostas agressivas…
como faço para conviver com isto? que tipo de atitude devo ter? nao sei como falar nem o que lhe dizer quando esta de cama pois sao sempre crises diferentes e a maior parte das vezes por motivos estupidos ou insignificantes…quero ajudar, mas responde-nos sempre com tanta amargura e agressividade e que “nao a compreedemos e somos uns insenssiveis” que fico sem vontade nenhuma…vejo que ela sofre e é infeliz e nao sei como fazer, o que dizer…tambem se lhe peço para contar o que se passa limitasse a ficar em silencio como que “a gozar com as nossas caras”, porque ela esta num nivel superior e nao a vamos compreender…
o ser bipolar sofre e faz sofrer…já que apresentam soluções para quem é bipolar, porque nao apresentam soluções para quem vive com eles? é que sofremos igualmente..não quero acabar por odiar a minha mãe, mas a maior parte das vezes é esse sentimento que me consome pelos sentimentos de culpa que nos faz ter por nao a compreendermos e nao a conseguirmos ajudar…
alguem sabe de que forma é suposto nós (familiares de bipolares) agirmos, ou de que forma podemos ajudar?…
Cara Tania,
Não existe um manual que ensine a conviver com a bipolaridade. Cada caso é um caso. Não se pode generalizar.
Compreendo a sua preocupação e desespero perante um cenário tão complexo como o que retratou. Mas infelizmente não existe uma receita ou uma fórmula mágica para ajude a conviver com este distúrbio. Por muito desgastante que seja, os familiares de um bipolar têm que ter uma boa dose de paciência e de compreensão. Aprender a lidar com a situação no dia-a-dia. E apoiar na medida do que lhes for possível.
***
Deve ser coisa de Exu
Tânia:
Um bipolar só tem esse tipo de comportamento quando está descompensado e não tem a melhor medicação. A maneira mais eficaz de lidar com um bipolar é ajudá-lo a tratar-se, a tomar consciência da sua doença e acompanhá-lo ao médico, mesmo que ofereça resistência. Em casos mais extremos, o internamento deve ser considerado pela família quando a situação se torna insuportável.
Não se pode deixar que se afundem no seu próprio poço; um bipolar pode ser uma pessoa difícil, mas não deixa de ser um ser humano que sofre (e faz sofrer, é certo).
Também sou bipolar, e hoje estou desesperada.
Bipolar é um ser mais sensíveil, porém não é superior e nem superior a ninguém. Sabendo tirar proveito, somos mais persistentes e batalhadores, o que nos faz muitas vezes, conseguir nossos objetivos. O que não podemos é ficar sem dormir, com idéias fixas. Passei 8 anos sem tomar nenhuma medicação e só veio a terceira crise porque não prestei atenção nas minhas emoções e abusei… ficando sem dormir, fazendo longas pesquisas, que abalaram o meu lado emocional. Sou dócil, fácil de lidar, e mais “normal” do que muitos que se julgam “normais”. Não é possível igualar ninguém, criar rótulos é uma injustiça. Agora estou tomando medicamentos, porém, tenho o objetivo de deixá-los algum dia. Faz um mês que a crise aconteceu. Vou lutar e me conhecer mais, estou em um psicólogo e sei que fui responsável pela minha recaída, pois não dei importância ao meu próprio sofrimento e deixei a doença voltar.
amo uma mulher que se chama flavia .ela sofre de desturbio ,pois quero sempre ajudala, mais choro escondido pra que ela não veja, pois sempre quero deixala com astral sempre alto, sempre fico com ela nos momentos difiçeis ; pois tambem ela é bolemica, procuro uma razão mais não encontro pois creio que essa coisa pode ter uma cura, mesmo as pessoas me dizendo ao contrario, pois é muinto difiçio não saber como sua mulher estara daqui alguns minutos horas ou dia , pois oro todo dia pra meu deus acreditando eu que isso seja só uma depressão passageira