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“ARRE, ESTOU FARTO DE SEMIDEUSES! ONDE HÁ GENTE NO MUNDO?”

Cada vez mais me convenço que vivemos num mundo de aparências em que as pessoas sentem uma [inexplicável] necessidade de demonstrar que são melhores que o próximo. A vida é feita de conquistas e de derrotas. Sendo que são estas últimas que nos fazem crescer e nos dão alicerces para ultrapassar as adversidades. É com os erros que tiramos as grandes lições e aprendemos.

Quando é que as pessoas vão ganhar coragem para assumir as suas falhas? Faz parte da condição humana… 

 

POEMA EM LINHA RECTA

 

Nunca conheci quem tivesse levado porrada.

Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.


E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,

Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,

Indesculpavelmente sujo,

Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,

Eu que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,

Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,

Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,

Que tenho sofrido enxovalhos e calado,

Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;

Eu, que tenho sido cómico criadas de hotel,

Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,

Eu que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,

Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado,

Para fora da possiblidade do soco;

Eu que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,

Eu que verifico que não tenho par nisto neste mundo.


Toda a gente que eu conheço e que fala comigo,

Nunca teve um acto ridículo, nunca sofreu um enxovalho,

Nunca foi senão – princípe – todos eles princípes – na vida…


Quem me dera ouvir de alguém a voz humana,

Quem confessasse não um pecado, mas uma infâmia;

Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam. 

Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?

Ó princípes, meus irmãos,


Arre, estou farto de semideuses!

Onde há gente no mundo?


Então só eu que é vil e erróneo nesta terra?


Poderão as mulheres não os terem amado, 

Podem ter sido traídos – mas ridículos nunca!

E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,

Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?

Eu, que tenho sido vil, literalmente vil,

Vil no sentido mesquinho e infame da vileza. 

                             Álvaro de Campos


TO REFORM THE WORLD, WE MUST FIRST REFORM OURSELFS

«So we recycle our garbage. We vote greener. We buy sleek, new hybrid cars and fill our houses with energy-efficient light bulbs. And we put our money and faith in the brave and ingenious technologies that will rescue us from the whirlwind.

But it won’t be enough. Because this is not, fundamentally, a technological problem. Nor is it, fundamentally, a political problem. This is a problem of appetites, and of narcissism, and of self-deceit. The planet is breaking, and it is breaking under the weight of our hunger for more. To reform the world, we must first reform ourselves

[in AFFLUENZA.ORG]


O QUE HÁ EM MIM É SOBRETUDO CANSAÇO

Fui ao TNSJ ver o “Turismo Infinito”. Uma peça encenada pelo grande Ricardo Pais que nos leva a uma viagem pela cabeça daquele que foi o maior poeta português. O serão não só serviu para matar as saudades do teatro (ansiava há muito por ver uma boa peça) como reavivou a minha memória.

Sempre gostei da forma como Fernando Pessoa via o mundo. Revia-me em muitas coisas que ele escreveu. E a peça despertou a vontade de reencontrar o poeta. Parti então à descoberta da sua obra no mundo cibernáutico (é a forma mais simples e rápida de encontrar o que queremos nos dias que correm) e achei um poema que reflecte o meu estado de espírito neste momento: «O que há em mim é sobretudo cansaço».

 

O que há em mim é sobretudo cansaço

Não disto nem daquilo,

Nem sequer de tudo ou de nada:

Cansaço assim mesmo, ele mesmo,

Cansaço.

 

A subtileza das sensações inúteis,

As paixões violentas por coisa nenhuma,

Os amores intensos por o suposto alguém.

Essas coisas todas -

Essas e o que faz falta nelas eternamente -;

Tudo isso faz um cansaço,

Este cansaço,

Cansaço.

 

Há sem dúvida quem ame o infinito,

Há sem dúvida quem deseje o impossível,

Há sem dúvida quem não queira nada -

Três tipos de idealistas, e eu nenhum deles:

Porque eu amo infinitamente o finito,

Porque eu desejo impossivelmente o possível,

Porque eu quero tudo, ou um pouco mais, se puder ser,

Ou até se não puder ser…

 

E o resultado?

Para eles a vida vivida ou sonhada,

Para eles o sonho sonhado ou vivido,

Para eles a média entre tudo e nada, isto é, isto…

Para mim só um grande, um profundo,

E, ah com que felicidade infecundo, cansaço,

Um supremíssimo cansaço.

Íssimo, íssimo. íssimo,

Cansaço…

Álvaro de Campos


PEDRAS NO CAMINHO? GUARDO TODAS, UM DIA VOU CONSTRUIR UM CASTELO

“Posso ter defeitos, viver ansioso e ficar irritado algumas vezes, mas não esqueço de que a minha vida é a maior empresa do mundo. E que posso evitar que ela vá à falência.

Ser feliz é reconhecer que vale a pena viver, apesar de todos os desafios, incompreensões e períodos de crise.

Ser feliz é deixar de ser vítima dos problemas e se tornar um autor da própria história.

É atravessar desertos fora de si, mas ser capaz de encontrar um oásis no recôndito da sua alma.

É agradecer a Deus a cada manhã pelo milagre da vida.

Ser feliz é não ter medo dos próprios sentimentos. É saber falar de si mesmo. É ter coragem para ouvir um “não”.

É ter segurança para receber uma crítica, mesmo que injusta…

Pedras no caminho? Guardo todas, um dia vou construir um castelo.”


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